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sábado, 19 de janeiro de 2013

Conto: Liança di açu é doi!

Sábado, 19/01/13. 


Liança di açu é doi!

Todas as terças-feiras, pela manhã, e principio da tarde, numa esquina bastante movimentada da farmácia onde eu trabalhava, fica um vendedor ambulante gritando aos montes, tentando interagir com as pessoas que transitavam próxima á calçada.
Tentava focar em meu serviço, afinal, era pra isso que eu estava sendo pago, e esse era o real significado de eu estar ali- vender remédios. Mas não tinha como não ouvir seus gritos estridentes e argumentativos.
E entre um afazer e outro, uma venda de medicamento e atendimento ao cliente, eu me esticava todo, disfarçadamente, debruçava no balcão, para vê-lo transitando, gesticulando, indo e voltando, abordando os traunsentes na calçada da farmácia onde eu era atendente.
O homem não parava, andava sempre de um lado pro outro gritando uníssono o seguinte bordão: “liança de Açu é dói”.
Não foram os erros de português que mais me chamaram a atenção afinal, ele era um homem simples, do povo, não era culto, letrado, provavelmente não tivera a mesma oportunidade que muitos de nós tivemos de concluir os estudos; talvez sequer houvesse concluído o curso secundário, ou primário. Sinceramente não tinha a menor intenção de falar bonito, o que ele queria mesmo era atrai a atenção pra o seu produto.
Em cima de um pequeno caixote, dentro de um tabuleiro, tinha de tudo: anéis, brincos, pulseiras, cordões, relógios, mas o seu diferencial mesmo, era “liança”, que ele vulgarmente popularizou com os erros de português.
Sujeito grotesco, magro, de altura mediana, aparência meio estranha, em sua simplicidade, com suas frases errôneas, porém de efeito, me fez pensar sobre algo a muito esquecido- casamento.
Eu que já havia sofrido na pele a decepção de ser traído, a dor de um coração partido, de tanto lhe ouvir impreterivelmente todas as terças- feiras, do período da manhã, até por volta de meio dia e meia, ou término da feira, bater na mesma tecla, parecia um disco arranhado, repetindo sempre a mesma frase: - “liança de Açu é dói”; seria afinal um mau presságio, de que eu insanamente me arriscaria num terceiro relacionamento?
Ainda que muito romântico, não havia ultimamente pensado nisso. É óbvio que sonhara em novamente um dia me casar, ter filhos, afinal, é também um mandamento bíblico.
Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra. (Gênesis 1: 28); Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma coadjutora que lhe seja idônea (Gênesis 2: 18); Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á á sua mulher, e serão uma só carne (Gênesis: 2:24). Mas daí a firmar compromissos, casar, ter filhos, assim tão de repente, é algo muito difícil, porém não impossível!
Meus pensamentos iam muito além disso, pensava eu cá com os meus botões, enquanto ouvia seu famoso bordão, aos gritos, não vou dizer agora, quer pra não ficar muito repetitivo; como se não fora o bastante, ainda tinha que ouvir como trilha sonora, o Zezo, no fiteiro do Ruí, era de estourar os ouvidos.
Aí não teve mais jeito, minha mente começou a fantasiar, me remetia a um passado não muito longínquo, enquanto que uma pergunta surgia no ar, na verdade não queria calar: qual seria o preço que teria de pagar caso assumisse um novo relacionamento?
Vale salientar que o preço a que me referia ter que pagar, pouco ou nada tem haver com questões financeiras, mas as coisas que teria que abrir mão, sacrificar, abnegar, tudo em prol de uma nova vida na coleira.
isso sim é de lascar. coloca a nossa a vida de pernas para o ar, muda a nossa rotina completamente, o que antes parecia bom, der repente não tem mais o mesmo sabor, já não é mais o mesmo. 
E pensar que muitos se prendem a simples detalhes, a exemplo: convite de casamento, viagem de lua de mel, ornamentação da igreja e salão de festa, roupa do noivo e da noiva, presentes de casamento e anel de noivado 18 quilates, cravejado de diamantes e rubi, para o amor que é o mais importante, ninguém estar nem aí.
Não se leva em conta os verdadeiros sentimentos, ama-se menos quando não se tem dinheiro, o juramento que outrora se faziam no altar aos pés do padre, de: "até que a morte os separe", hoje foi totalmente modificado, readaptado a nova realidade, que é: "até que as primeiras brigas, as dividas, e o primeiro chifre faça cada um o seu rumo seguir", ainda há os que prefiram viver de aparências, que mesmo se odiando vivem debaixo do mesmo teto, para não dividir a herança, esses são dignos de pena. 
Não estou querendo dizer que o verdadeiro amor seja utopia, há casos isolados, raros, onde o amor valha  realmente a pena, onde o seu valor não esteja subjugado a avaliação de um famoso joalheiro.
Afinal, vão-se os anéis ficam-se os dedos; mais importante que uma joia cara são os verdadeiros sentimentos. estes não tem preço!
Nada se compara ao amor do marido pela mulher, e o da mulher pelo o marido, e o de ambos pelo os filhos! A família é mais importante que os bens materiais, está muito além de coisas superficiais, não se negocia no mercado financeiro. A aliança é apenas um objeto, meramente simbólico, assim como a cerimonia e a festa de casamento, não medem o que realmente sentimos por dentro! caso contrário, qual a razão de tantos divórcios, em tão curto espaço de tempo de casamento? “Liança di Açu é dói.”, e pra você, quanto vale os seus sentimento?

Adilson Adalberto

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Um comentário:

  1. Oii amigo, qto tempo, estou voltando hj depois de uma boa ausência curtindo as férias com a família, adorei esse texto, muito bem humorado apesar de ser um papo sério, os nossos sentimentos são muito valiosos, inclusive qdo não amamos mais, ai o divórcio é necessário, não dá p forçar qdo não há mais amor! ótimo texto! Abraçossss Há gostei muito das mudanças no blog! Vc podia tirar as letrinhas de verificação p facilitar nossa vida tbém rsrrs

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