terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Conto: In Memórian!

Terça, 15/01/13. 


In Memórian!

Quando eu era criança lá por volta de mil novecentos e esquece o resto, eu e minha avó éramos frequentadores assíduos da igreja católica. Naquela época nos reuníamos na casa da saudosa Nevinha, na reunião do grupo do espírito santo, hoje renovação carismática. Eram reuniões voltadas para os adultos, mas nós, crianças, éramos figurinhas constantes, carimbadas. Eu presenciei coisas fantásticas, Natais maravilhosos, peças teatrais, procissão saindo de nossa casa de madrugada, são tantas emoções, tantas histórias, que eu poderia ficar horas, que Sá dias, preenchendo páginas e mais páginas, da minha passagem pela a igreja católica. Ia com a minha avó as missas de domingo, e sempre que o padre se empolgava, passando um pouco da hora durante a sua pregação, lembro-me que cochilava lá, do meu cantinho, normal para um garoto de minha idade, que aos domingos acordava cedo para ir a missa ouvir a pregação do padre. Mas me recompunha rápido, e logo ficava firme e forte, ouvindo o que ele falava. Ficava encantado, pra não dizer deslumbrado com o seu poder de persuasão, ali a poucos metros de mim.
- como que ele conseguia manter tanta gente atenta a si, e aos seus ensinamentos por tanto tempo, indagava a mim mesmo.
No altar, com aquela batina branca e também aquele pano verde em volta do pescoço, que até ainda hoje não sei como se chama.  Ele falava com bastante autoridade, como quem tivesse muita intimidade com as coisas lá do alto. E depois da benção apostólica, as pessoas se cumprimentavam, depois iam pras suas casas regozijados, cuidar de seus familiares e de si mesmos, e no decorrer da semana, mais uma das reuniões do espírito santo, na casa de uma das irmãs do grupo. Lembro-me que fiquei muitíssimo feliz ao ganhar da minha avó um livro de cânticos, “Louvemos ao Senhor”, adorava cantar os hinos da época, especialmente os de padre Zezinho, até hoje curto as músicas dele. Timidez sempre foi meu maior defeito, devia ter me envolvido mais, aproveitado mais, ter feito o que eu queria fazer, mas não fiz fazer o quer? Os erros existem para que possamos com eles aprender! Se fosse hoje certamente seria e/ou faria tudo diferente! Maturidade é isso! Há se juventude soubesse e a maturidade pudesse. As festas na casa da saudosa nevinha eram ótimas, festas de aniversários da hora, comia bastantes fatias de bolo, cachorro quente com refrigerantes, enquanto as mãe e avós conversavam após uma e outra reunião, a gente aproveitava, brincava, corríamos bastante. Certo dia, enquanto caminhávamos pelos corredores da igreja, observando as imagens ali contidas, para a nossa alegria, especialmente a minha, eis que ele surge da sacristia, sorridente, atencioso como sempre, cumprimentou a minha avó, ambos se conheciam dali mesmo, da igreja e das reuniões do grupo do grupo do espírito santo. Conversaram por alguns instantes, não me lembro do teor da conversa, devia ser algo realmente importante, a julgar pelo fato de que por alguns instantes, ele nem me notara. - Devia estar invisível, disse a mim mesmo enquanto olhava atentamente para ele, como quem dissesse:
- ei, psiu, eu estou aqui. Acho que alguém lá em cima me ouviu, intercedeu por mim, finalmente ele me olhou, passou a mão em meus cabelos, e nos convidou para sentar num dos bancos da igreja. Ele sentou-se a direita, a minha avó à esquerda, e eu como era pequeno, fiquei no meio; duvido que nessa posição estratégica eu passe despercebido. E não é que funcionou, entre uma conversa e outra, vez por outra, eu era solicitado a responder, a opinar sobre qualquer coisa, do que estava sendo dito. Até que a minha avó resolveu falar/confidenciar-lhe das minhas curiosidades de menino. Disse-lhe entre outras coisas da minha vontade de querer ser padre. Ele me perguntou o motivo, e eu inocentemente, sem fazer cerimônias lhe respondi. Que é por que tinha ouvido falar que padre estudava muito, sabia falar latim, e que para não dormi, estudava a noite toda com os pés dentro de uma bacia com água e gelo. Ele sorriu, e disse-me:
- vamos por parte.
- primeiro, pra estudar a bíblia e aprender latim, não precisa ser padre. Segundo: - pra que você quer aprender latim?
Eu sem hesitar lhe respondi:
- a sei lá padre, é que é que eu achei bonito o senhor rezar. E todas aquelas pessoas ali, durante horas a lhe escutar.
Disse-me também que para ser padre precisava ter vocação, eu não sabia o que quer dizer vocação, mas conforme eu fui crescendo, fui aprendendo que nunca é que eu poderia ser padre. É que existia outra palavra que impossibilitava a minha ida para o seminário - celibato. Eu ainda não sabia, mas, logo descobriria os prazeres da carne. Vi também que ser padre é muito chato e solitário, depois que termina a missa, todos vão embora e ele fica só dentro de sua casa, nunca que com essa vida eu me acostumava. Finalmente quis satisfazer uma curiosidade antiga- pegar nas mãos de um padre. Pensei que fossem diferentes, a julgar por que as pessoas tantos as beijavam, mas para minha decepção, elas eram iguais as minhas, a não ser pelo o tamanho e espessura, normal pelas as nossas diferenças de idade. A conversa se prolongou mais um pouco, depois se deu por encerrado. Fiquei um bom tempo matutando cá com os meus botões, tudo o que havia me dito o padre. Continuei frequentando a igreja com a minha avó, mas já não nutria o mesmo desejo de ser padre. Tinha vontade de fazer a minha primeira comunhão, como faziam todos os meninos da minha idade; mas nunca entendi direito por que é que a minha avó nunca se “interessou” pra que esse meu desejo fosse realizado. Era muito triste quando na missa, o padre convidava a todos a tomar a “ostra consagrada”, e eu saia de fininho, de cabeça baixa. Sentia-me diferente, excluído, menosprezado, incapacitado, indesejado, e tantos outros adjetivos terminados em ado, que felizmente ficaram no passado. Pensei até em entrar na fila e tomar, afinal, quem é que iria saber se eu haveria feito ou não? Mas fiquei sabendo que se tomasse a “ostra consagrada” sem ter feito a primeira comunhão, estaria fazendo isso pra minha própria condenação, e iria direto para o inferno, quando passasse pro outro lado, por isso dei voz à razão, deixando as emoções de lado, embora muito decepcionado, e hoje reconheço muito mal orientado, pois, para tais argumentos, não vejo na bíblia nenhum respaldo. O tempo passou, muita coisa mudou, eu cresci e o pároco saiu de nossa igreja matriz, e até pouco tempo eu não sabia do seu paradeiro, coincidentemente conversava com alguns amigos, véspera de natal, no pátio da mesma durante um show com padres da igreja católica; falamos de tudo: da nossa infância, das experiências na igreja católica, das músicas cantadas e ouvidas, até que der repente seu nome surgiu na conversa. Jurava que ela havia voltado pra sua terra natal, Bélgica, se não me falha a memória, porém lamentavelmente quinze dias depois desse nosso encontro, fomos surpreendidos com a infeliz noticia do seu falecimento, comunicado pela arquidiocese da Paraíba, no dia 8 de janeiro (terça-feira) de 2013, no hospital da Unimed em João pessoa, de parada cardíaca, onde estava internado. Inúmeros fiéis saíram de nossa terra para prestar as ultimas homenagens, ao ex- pároco da nossa cidade nos anos 80, onde realizou trabalhos sociais e de evangelização que ficaram marcados na história da nossa igreja. Quanto mais vivemos, menos sabemos, a vida é uma eterna caixinha de surpresa! Temos a doce ilusão de que vamos durar para sempre! Não pensamos na morte até nos depararmos com ela, ou com a partida de um ente muito querido, ou quando chega a nossa hora. Muitos dizem não temê-la, não sei se é mesmo verdade, se for, são pessoas muito corajosas, eu confesso que morro de medo, e faria qualquer coisa para não cruzar por essa porta. Outros dizem que ela é apenas uma viagem, pois se for, é uma viagem sem volta. Ninguém exceto Jesus Cristo retornou de lá, nem mesmo seus fiéis e seguidores apóstolos. Se eu tivesse a oportunidade de lhe dizer alguma coisa antes de sua fatídica jornada, acho que seriam essas, as minhas únicas palavras: Pe. Antônio Arnaund Kemps obrigado pelos ensinamentos, o senhor sempre foi um grande exemplo, para todos nós que um dia o conhecemos, agora descanse em paz! Assim como diz o apostolo Paulo, combateste o bom combate, acabasse a carreira, e guardasse a fé. (2 Timóteo 4:7). O céu agora é o seu habitat!

Adilson Adalberto

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