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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Crônica: A feira de Itabaiana.

Segunda, 13/02/12.

Crônica: A feira de Itabaiana. 

Bons tempos aqueles de outrora, da feira de Itabaiana, nela havia de tudo: vendas de inhame, batata, mandioca. Bancos de mangaios: arreios, cangalha, cordas, candeeiros, bacias, panelas, grelhas, fogareiros, baleeiras, crista leiras, par, chaleira, carrinhos de lata, e também de madeira, pinhão, cinturão, armador de redes, bacias, vasos de louça, filtro, funil, pinico, buli, ponteiras, pavio de candeeiro, forma de bolo, tapete, chapéu de couro e de palha, botas de vaqueiro, cabresto de cavalo e rabichola, espora, pegador, cinzeiro, balaio, panelas de barro, abanador, pegador, caçoar, caneco de zinco. tinha inicio enfrente a casa de dona celeste, até a câmara municipal-lado direito e esquerdo; tive essa experiência na prática, meu pai e meu tio, também eram frandileiros/ mangaieiros. Inesquecível a feira de vasos e bonecos de barro, enfrente a casa de seu zuquinha. Onde minha avó comprava algumas peças pra eu brincar com os meus amigos; lembro-me que em dias de chuvas eu pegava no barro, e fazia meus próprios bonecos, botava no sol pra secar, e depois ia brincar com os amigos. Tinha também na calçada do mercado, a banca de fumo de rolos, a de cuminho colorau e alho, também a banca de literatura de cordel, eram livrinhos fininhos com histórias interessantes, presos com um pegador num barbante, daí a origem do nome-cordel. Isso sem falar, nas barracas de comidas típicas; bolos de fubá, milho, trigo, pé de moleque, mandioca, arroz doce, alecrim e canela, canjica, castanha, amendoim cozido, torrado e inconfeitado, pastéis, cocada, bejú, angu, passo Ca, pão bola chão, bolacha sete capas, farinha, rapadura, broa, e tapioca, refresco de coco, maracujá e graviola, caldo de cana gelado, churrasquinho de bofe, vulgo de gato, melado na farinha, que eu e minha irmã caçula, adorávamos comer quando com nossos pais íamos á feira; hum, que delícia! Ainda a feira do bacurau nas noites de segunda feira, lá se vende/ia de tudo: bicicletas, rádio, TV, ventilador, liquidificador, ferro elétrico, relógios de pulso, máquina de costura de pé e de mão, e uma infinidade de outras iguarias, que com o passar dos tempos, foge-me a mente. Outra feira que me lembro, era a feira de passarinhos, aonde eu ia com meu saudoso pai, sempre as terça bem cedinho. No alto dos currais, tinha a feira de gado, mais essa não era do meu tempo, só lembro porque por minha avó me foi contado; ainda no mesmo local, tinha a feira da banana e das frutas, que muito embora não seja como antes, ainda hoje continua existindo; e na beira da linha- lado direito, as barracas de comidas, onde os feirantes iam comer: batata, inhame, macarrão, lingüiça, tripas bem sequinha, carne de charque/picado com arroz e macaxeira, galinha de granja ou capoeira torrada e assada, café, leite, suco, pão, bolacha, biscoito, sem esquecer-se da branquinha, comumente chamada de pinga, que alguns dos feirantes tomavam, pra fugir do sono e do frio, e esquentar as orelhas, enquanto aguardavam o despertar de um novo dia. Era uma festa as noites de segunda pra terça-feira. Eu que era apenas um desses personagens anônimos, dentre tantos que podiam circular ver e também ser vistos nessa tão famosa feira; ainda criança, usando calças curtas, já tinha ambição de ser grande, por isso decidir ir à luta. e com uma quartinha dada pela minha avó, comprei água à finada dona mocinha- nossa vizinha, e com ela na cabeça e um bi saco a tiracolo, com um copo dentro dele, gritava sem muito jeito, “oia a água óia!”, para os vendedores de inhame batata e macaxeira da feira. Perco as contas das vezes que por eles fui enganado, diziam-me menino volte mais tarde, agora não tenho dinheiro trocado, e eu de besta e menino lesado, saia dali aos prantos, chorando como um bezerro desmamado. Finalmente depois de tantos topos, decidir mudar de ramo - vender dim - dim. na porta do supermercado “o balaio”; lembro-me do meu saudoso pai-doca falando, menino deixe de ser vergonhoso, abra a sua boca, e saia por aí gritando, “oia o dim - dim. oia”; eu não estava dando a mínima para o que meu velho estava falando, crente que estava no caminho certo, pois assim dizia o slogan do supermecado: quer moleza meu irmão, vá no balaio! Levando-se em conta ao comercial que se fazia, e a minha timidez - minha eterna agonia; não arredei o pé dos batentes do supermercado, nem tampouco abrir a boca, por mais que meu saudoso pai tivesse recomendado. E para a surpresa de todos, vendi não uma, mas duas caixas de meus produtos; sem sequer dizer um muito obrigado. Agora estava feliz da conta, sentia que a sorte enfim estava do meu lado. Ninguém acreditava como eu poderia vender tanto, sem sequer abrir a boca, e estando num mesmo canto, parado. Pra ser bem sincero, nem eu, acho que estava sonhando acordado. Todos os dias era a mesma coisa, saia dali pra prestar conta, a dona Celha, esposa do senhor mane Zinho Feliciano, de todo o meu apurado. Depois me cansei/ enjoei, decidir mudar de ramo der repente vender dim. dim. já não era mais tão rentável. Decidir fazer outra experiência, pegar frete não como hoje, com carros de mão, mas com balaio; acredite, foi super desagradável! A primeira e única feira que fiz com o balaio e ajuda de um amigo- dono do desgraçado foi lá para as bandas do campo do náutico; não me lembro com precisão onde ficava a residência, acho que fiquei a época traumatizado; Só sei que foi longe pra Ca ralho. Lembro-me que quase derrubei a feira da freguesa, e de alegria, quase fui às lagrimas quando meu amigo tirou-me o maldito balaio de cima da minha cabeça, meu pescoço quase que entrou corpo adentro, me deixando aleijado, eita trocado difícil, nessa hora, sentir saudades de minha caixa dim. dim. nos batentes do supermercado o balaio; e até das águas que eu vendia em minha antiga quartinha, menos dos calotes que os filhos da puta me davam. Decidir mais uma vez mudar de ramo, pois sentir na própria pele, digo, na cabeça que pegar frete, não era o meu itinerário. Tive a brilhante idéia de abrir meu próprio negócio, pois, o que quer que eu ganhe, o dinheiro que pingasse, era meu, e o mais importante, sem fazer muitos esforços; foi aí que me tornei um empreendedor-vendedor de castanholas num pequeno banco de madeira em minha porta. E apesar de ter a matéria prima sem gastar nenhum tostão, uma vez que no terreiro de minha antiga casa(R:joão Feliciano de Luna nº 09) tinha um pé enorme dessa fruta, sou obrigado a confessar, que não demorou muito a eu abrir falência, pois os amigos que freqüentavam o meu pequeno estabelecimento, ou vinham para roubar minhas mercadorias, ou comprar fiado e não me pagar pelo consumo de minhas iguarias. Cansado de tantas experiências frustradas, tomei uma atitude nada condizente com a minha pouca idade, abandonar de vez essas coisas de trabalho, deixá-las para os grandes, curtir a vida de acordo com as fases de minha tenra idade, aproveitar minha infância ao máximo; assim passei a olhar a vida, e as feiras em que ia com meu saudoso pai e também meu tio, ainda bem cedinho vender mangaios, em frente ao supermercado balaio, e com o tempo, vender coentro no mercado publico municipal com meus pais, pense num bicho cheiroso e verdinho. Assim eram/foram às feiras de Itabaiana, cheia de histórias, repletas de memórias, feitas por anônimos, pessoas que dedicaram suas vidas, fizeram planos, realizaram sonhos, trabalhando para o sustento de suas famílias, contribuíram para o desenvolvimento desse município, e no decorrer dos tempos, seus feitos, suas obras por muitos foram esquecidas. Ai que saudades que eu tenho, de minha infância querida, da aurora da minha vida, dos tempos que não voltam mais. Ressuscita oh Itabaiana dos meus sonhos, desperta enquanto é tempo do teu sono, segue enfrente e não durmas mais. 

Adilson Adalberto
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Um comentário:

  1. quando eu lembro tambem as minhas lagrimas correm dos meus olhos, quando lembro que eu vendia din din em frente a padaria pacheco com uns anos depois fui pegar feira com um balaio na cabeça,
    e hoje apesar de ser cabeleireiro a 17 anos resido na cidade de saõ josé dos ramos, mais lembro muito bem quando morava no jucuri que tempos quantas saudades. CHICO CABELEIREIRO,francisco........

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