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sábado, 29 de setembro de 2012

Crônica: O engraxate.

Sábado, 29/09/12. 



O engraxate.

Profissão com os dias contados hoje em dia, é essa de engraxate. Quando eu era criança, era comum vê-los trabalhando nas portas da sinuca, onde meu saudoso pai trabalhava, com seu banco sentado nas calçadas. Mas hoje em dia é coisa rara, algo que não se acha em qualquer lugar, o que será que aconteceu, por onde será que andam esses profissionais da graxa? Sempre que vou usar meu sapato social, lembro-me deles, sinto sua falta. Ainda que meus sapatos congas a época em que trabalhavam, eles não engraxassem. Hoje é tudo muito moderno, qualquer um pode engraxar os seus sapatos, estão lá sempre expostos, nas prateleiras de qualquer supermercado. Porém sou obrigado a confessar, que não é lá uma tarefa muito agradável, além de inevitavelmente melar os dedos, também te deixa muito cansado. É um esfrega pra lá e pra cá, até o sapato brilhar. Só está pronto quando se ver a imagem refletida como num espelho, aí é só sair e se exibir, pra que todos possam observar. Particularmente considero este oficio uma arte, não é a toa que dizem os especialistas no assunto, que a elegância do homem, começa pelo os sapatos. É pela marca, modelo, tipo, estilo de sapato que se conhece o homem e a sua personalidade, dizem os especialistas da modalidade. O mais importante é saber para cada ocasião adequá-los, e não menos importante, sentir seus pés neles superconfortáveis, macios, sem fazer calos. Adoro sapatos, tenho-os por hobby, pena que ainda não posso colecioná-los. Não tenho todos que quero, mas os poucos que tenho, sou completamente apaixonado. De que adianta colecionar muitos pares de sapatos, se tens apenas dos pés pra calçar? Diz um adágio popular. Eu discordo plenamente desse dito popular, não é por que tenho só dois pés, que eu não posso os reversar, trocar. Um para cada ocasião ou lugar. Mulher é quem os tem de lascar, são dezenas, centenas, milhares os pares, nunca estão satisfeitas com os que têm, e sempre trazem no mínimo mais um par na bagagem, quer pra sua coleção ainda mais aumentar. Perto delas, a nossa coleção é ínfima, não dá nem pra comparar, tem coisas que não deviam nunca passar, tampouco acabar, e uma delas sem dúvidas é a profissão de engraxate, pena que só existem nas capitais, nas metrópoles, nos grandes centros urbanos; que não deixam como no interior, a tradição ceder à modernidade. Pra tudo a seu espaço, não é acabando com a nosso cultura, nossa história, que vamos conquistar mais status. Tem que haver um equilíbrio entre o antigo e o moderno, o sofisticado e o popular, pra preservar nossas raízes, e termos pros nossos netos o que contar. Também temos que nos adaptar, se quisermos continuar a existir, e não correr riscos de desaparecer, como os engraxates, guardados apenas na memória, e não nos livros de história, onde certamente é o seu lugar, como o saudoso Adauto Elias Cavalcanti, sendo que não o conheci, nunca vi e dele pouco ouvir falar. É o preço do progresso e da modernidade, “vou mim borá pro passado...” já dizia o poeta Jessiê Quirino, em seus versos popular. Concordo em gênero, número e grau com ele, e é lá que também eu quero estar.

Adilson Adalberto



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Um comentário:

  1. gostei muito desse texto Adilson!!.. só fiquei com uma dúvida:.. será que o Saci-Pererê ganha algum desconto quando vai comprar sapatos?.. rs

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