Domingo, 14/10/12.
Conto: Saga
do compadre Abelardo.
Pense num cara abestalhado, é
esse tal Abelardo. O cara acorda cedo, antes de amanhecer o dia, ainda com o
cantar do galo e o cacarejar das galinhas, veste alguns trapos rasgados, tira a
remela dos olhos, faz um café fraco e ralo, usa sua meia como coador, por que a
sua “digníssima” esposa Maria sequer se levantou pra dizer onde tinha. Café da
manhã nem pensar, pra ele não sair em jejum, teve mesmo é que se contentar com
as sobras do jantar. Mas Abelardo tinha paciência de Jó, acho até que sua mãe
errou ao escolher seu nome, era por esse que ele devia se chamar tamanho era
sua capacidade para perdoar. Todos os dias fazia o mesmo ritual, ia até à rede
das crianças, dá um beijo em cada um dos quatro filhos, antes de ir trabalhar. *margarida,
huguinho, Zezinho e Luizinho, de sete, seis, cinco, e quatro aninhos, sua única
razão de ser, existir e continuar. Depois, sempre no mesmo horário, ele põe nas
costas a inchada, seu instrumento diário de trabalho, e vai pro Roçado,
trabalhar. Capinar, cavar, plantar milho, feijão, fava, batata, inhame e
mandioca. E já muito cansado, normal pra esse tipo de trabalho, diário, de sol
a sol, pausa apenas para almoçar; ele bem que podia fazer isso lá, se tivesse
levado uma marmita, agora era só acender um fogo e esquentar, ou comer assim
mesmo, fazia um calor desgraçado, a comida nem deve tanto se esfriar, nem
Abelardo era muito de reclamar. Em nome da harmonia na família e no lá, era
capaz de engolir qualquer sapo, ainda que estivesse prestes a si engasgar. Mas
ele não levou comida, por isso decidiu voltar. Também, se não tivesse limpado
as panelas e os pratos da noite anterior, sequer tinha comido pela manhã,
quanto mais a madame ter si dado ao trabalho de levantar ainda mais cedo do que
o corno, digo, do que o esposo, pra preparar o almoço, pra que o pobre coitado
pudesse levar. Por isso decidiu voltar. Também estava com saudades dos filhos,
saiu ainda cedinho nem deu tempo de vê-los despertar. Há essas horas já deviam
ter chegado da escola, que era bem pertinho, era só pro outro lado atravessar. Também
estava com saudades da esposa, por mais que aquela diaba lhe fizesse raiva,
ainda a amava, disso ninguém tinha duvidas, senão como tantas humilhações
suportar, embora não quisesse ele confessar? E ao chegar a casa com o coração
quase saindo à boca, de tão cansado que estava, mas a emoção correndo à solta,
vontade de abraçar, beijar os quatro filhos e a ingrata esposa, para recarregar
novamente sua bateria, e dentro de uma hora e meia, voltar ao batente, e assim
terminar mais um dia, levando consigo o que ganhou pra o sustento da família.
Porém antes não tivesse voltado, por que como diz o ditado: “o que os olhos não
veem o coração não sente”. Era de cortar o coração, a cena que se fazia;
encontrou apenas seus filhos sozinhos em casa, em meio a uma bagunça danada, todos
gritavam, choravam, puxavam a barra da sua calça pedindo-lhe comida. Seria
cômico se não fosse trágico, ver ali Abelardo exausto, cansado, em meio aquele
berreiro, tentando acalmar e calar suas crias parecia até uma galinha cercada
por seus pintinhos. O aspecto não podia ser pior, a cena era lamentável, pra não
dizer, repugnante, decepcionante, triste de dá dó. Digna de um processo por
abandono de lá, mas acontece que conselho tutelar, nuca se viu nem ouviu por
lá. Só quem estivesse presente podia descrever detalhadamente a situação dos
guris. Estavam seminus, sujas, nariz escorrendo, olhos remelentos, pés
descalços, cabelos despenteados, Abelardo coitado, já meio desesperado e também
preocupado, perguntava a todos no povoado, por sua esposa Maria. E como já era
de se esperar, não houve um cristão que pudesse indicar, talvez nem a NASA
pudesse informar, por onde andará Maria. Lá dentro o fogo apagado, só vestígio
de cinzas da noite anterior existia. Sinal de que ela havia saído ainda
cedinho, aproveitando a sua ida para o serviço. Mãe desmiolada nem deu banho e
comida pros filhos, nem os levou pra escola, que nem era longe, ficava defronte
a sua porta, do outro lado da rua, antes foi bater pernas sabe lá Deus onde e
com quem no mundo. Sem mais delongas, catou uns gravetos, jogou gás por cima e
logo o fogo estava aceso, procurou no pitisqueiro por comida, mas para sua
surpresa, nada havia, senão: sal, açúcar, leite de cabra numa vasilha e
farinha. Abelardo apesar de calmo, dessa vez quase foi à loucura. Afinal o que
ela havia feito com o dinheiro que ele havia lhe dado outro dia pra comprar comida?
Indagou a si mesmo. Pensando besteiras, o sangue ferveu-lhe as veias, porém
teve que controlar a sua ira, por causa dos filhos, tadinhos, eles não mereciam,
não pediram para nascer, nem tinham culpa de tê-la como progenitora, que mais
parecia uma exterminadora de filhos, eram apenas vitimas da maior cagada que ele
já havia feito na vida, que foi conhecer, apaixonar-se e casar-se com Maria. E
não tendo muito escolha, usou o que tinha, fez-lhes apenas um mingau de leite
de cabra, com açúcar, sal e farinha. Saciada temporariamente a fome, ficaram der
repente com sono, e todos foram à tarde dá uma deitadinha. Agora era hora de
cuidar de si mesmo, tomar um banho gostoso, pra relaxar, esquentar uma
comidinha, quem sabe até tirar uma sonequinha, deitado no velho sofá da sala ou
até em uma das redes armadas que existia, mas quando se deu conta, já era a
hora de voltar ao trabalho, por isso resolveu deixar pra mais tarde, cear com a
família na hora da Ave Maria; e por causa do adiantado da hora, nem deu tempo
de fazer sua comida, colocou apenas um punhado de açúcar e farinha numa cuia,
bacia ou caçarola, a fome era tanta que nem se lembra agora, levou várias vezes
a boca, depois tomou três canecas d’água na fôrma, quer pra espantar a fome e
matar a cede, enche uma garrafa com água quer pra hidratar durante o restante
do dia, põe novamente nas costas a inchada, sua companheira de todas horas, que
se encontra atrás da porta, e volta mais uma vez pra lida, pra sua vida, que é
trabalhar feito um burro xucro, para o sustento da sua “amada” família.
Enquanto fazia seu trajeto, passava-se um filme em sua mente, desde o dia em
que conheceu Maria num forró de chica cega, até os atuais dias. Tiveram seus
momentos bons, os filhos são prova viva disso, e só, a muito que não são
felizes. Vivem apenas de aparências, só estão juntos até hoje por conivências. Por
ela já estariam separados, considera os filhos um carma, na vida dela um
atraso, a maternidade um mal desnecessário, não dá a mínima pros filhos; apesar
dos quatros que teve, os anos são generosos consigo, ainda é mui formosa a
vista. Continua a mesma morena de olhos verdes, de cabelos longos e
encaracolados, seios médios, curvas generosas, coxas grossas, Buda empinada, é
sem exageros a mistura da Gabriela (Juliana Paes) e a mulher melancia. Desperta
fantasias na rapaziada, os velhos literalmente babam quando ela passa, deixando
no chinelo as ninfetas da vila. Parece até que foi ontem, 20 anos pra ser mais
específico, foi amor à primeira vista, da parte de ambos, assim Abelardo
acredita. Caso contrário, por que motivo ela o escolheu, se havia a época, pretendentes
muito mais interessantes do ponto de vista financeiro, que o jeca tatu do
Abelardo? É bem verdade que ele não é de se jogar fora, sempre teve um porte
atlético de dá inveja nos demais cuecas de plantão, um vigor, uma disposição para
o trabalho, uma virilidade, e uma excelente forma física, que desperta nas
mulheres a atenção. Mas não vou entrar mais em detalhes, confesso que não me
sinto a vontade falar de particularidades masculinas, prefiro falar de Maria,
essa sim, encher as vistas, de desejos, vontades, volúpia e malicia; mesmo
sendo muito linda, ela não passa de uma bisca. Coitado do pobre Abelardo, quem
mandou casar com mulher bonita, dizem as más línguas, que “toda mulher bonita
tem dono”, mas não são eles, os maridos, que as excitam. Mas o importante é ser
feliz, não importa a que preço e de que modo for, é só colocar uma venda nos
olhos pra os defeitos, e só enxergar qualidades; Abelardo apesar dos pesares
considerava-se, e venhamos e convenhamos, era mesmo um sujeito de sorte. Casou-se
com a mulher mais bonita do bairro, apesar dos ruídos e comentários maldosos,
nada se pôde comprovar contra ela, se traia, tiro o meu chapéu pra ela, ninguém
sabia quem era o sortudo, digo, o urso, nem mesmo onde essa safadeza acontecia.
A verdade é que os homens morriam de inveja dele, da família que ele tinha;
todos apostavam que seu casamento não duraria nem 15 dias. Amigos da onça eram
estes de Abelardo, de olhos na sua mulher, torcendo contra seu casamento, que
mais um homem poderia ter? Para o inferno com todos eles, com o tempo Abelardo
deixou de ouvi-los e sabiamente decidiu viver. No fundo sentia-se um
privilegiado, aos olhos de Deus um afortunado por ter sido entre tantos bons e
até melhores partidos, ele o escolhido, e não uns e outros que até hoje sentem
dor de cotovelos, sem se contentar por terem sidos trocados, por ele, Abelardo.
A afinidade entre eles no inicio era tanta, que quase não saiam da cama,
somente para tomar banho, trabalhar e comer. Daí como não podia deixar de ser,
nasceram desse “amor” quatro filhos, um após o outro, era só nascer e
engravidar de novo; pense num fogo, que tinham esse casalzinho. Embora ela
nunca tivesse se prevenido, pois não era costume do pessoal do sítio, nunca que
tinha desejado tantos filhos. Pra ser sincero, nenhum Zinho. Ao contrário de
Abelardo que sempre sonhou uns seis, no mínimo. Mal sabia ele que os filhos,
direta e/ou indiretamente seriam os responsáveis pela crise no seu casamento.
Só o que Maria queria mesmo, era sexo, amor dê o nome que achar mais conveniente.
E nisso modéstia parte, eles eram unha e carne. Acho que por isso ela o
escolheu, por que tinha por ele afinidade. Dizem que as mulheres sentem-se
atraídas por homens pelo cheiro, pelo faro, pelo sexo. Sente o cheiro de macho;
e mesmo não sendo a pessoa adequada, pra dizer se isso é verdade ou mito, em si
tratando de Maria apenas digo “que tudo é possível”, e nada pode ser
descartado. Mas, o que aconteceu se eles eram ao que tudo parece tão
apaixonados? Será que a rotina, o convívio diário, a falta de tempo e/ou
exclusividade pra ela, a vinda dos filhos, aos poucos sem que pudessem perceber,
os distanciaram/separaram?Abelardo continuava lhe amando, apesar dos pesares, só
não concorda e sente ciúmes, quando ela aproveita a sua ausência durante o dia
enquanto ele trabalha, pra bater pernas no mundo com as suas amigas vadias.
Isso são lá atitudes de mulher casada? Dizia-lhe ele todos os dias, quando na
cama discutindo a relação estavam. Aliás, esse era sem dúvidas, um dos motivos
de muitas brigas- as suas amigas sirigaitas. Tudo ia muito bem, até o dia em
que elas entraram em suas vidas. Malditas. Enfiaram caramiolas em sua cabeça. Nunca
que iria aceitar a amizade de sua amada esposa com essas desavergonhadas.
Também, quem mandou ser otário abrir as portas de sua casa para essas
dissimuladas? Mas ainda é tempo e no que depender de Abelardo, o seu casamento
não vai acabar por nada. Maria ainda era a sua mulher, querendo ou não
querendo, tinha que lhe respeitar, custe o que custar; qualquer hora dessas,
ele perde a cabeça, aí a merda tá feita, só Deus sabe no que isso vai dá. Mas
enquanto esse dia não chega eis uma pergunta que não quer calar: onde é que
anda Maria, com quem será que ela estar? Diga-me, por favor, quem souber do seu
paradeiro, indagava Abelardo a si mesmo, coçando a sua cabeça, cabisbaixo enquanto
se dirigia ao local de trabalho, pra ganhar o seu sustento.
Adilson Adalberto
Adilson Adalberto
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