Terça, 25/12/12.
Conto: Meu conto de natal!
Quando eu era criança, via com
outros olhos o natal. Não que eu não mais acredite nele, é que nos últimos
tempos tem mudado e muito o espírito do natal. Pessoas já não se entendem mais,
os valores já não são iguais. Correm-se contra o tempo, buscam-se coisas fúteis,
banais, bens materiais. Rejeitam-se as espirituais, tornam-se seres egocêntricos,
Deus já não estar mais no centro, ficou pra escanteio ou caiu no esquecimento.
Em contra partida, os corações humanos estão cada vez mais sedentos, vazios por
dentro. Procura-se desesperadamente por algo que possa substituí-lo á altura:
casas, carros, motos, roupas de grife, conta bancária polpuda, bebidas
alcoólicas, drogas Lícitas (cigarro, álcool, medicamentos, etc.) e Ilícitas
(cocaína, maconha, etc.) vida social agitada, baladas noturnas, identidade
pessoal através da música, vida confusa, eternos tormentos. Outros tempos. Morreu-se
aos poucos a criança que outrora habitava nosso peito, perdeu-se a doçura, a
candura, a inocência que tinham as crianças de antigamente, impera a
vulgaridade, a vulnerabilidade e o desrespeito. Filhos já não amam os pais,
pais Idem aos filhos, netos já não obedecem aos seus avós, irmãos se
engalfinhando vivendo em constantes conflitos, marido e mulher indiferentes, traindo-se,
vivendo como verdadeiros inimigos; famílias se autodestruindo pela ausência de
Deus em suas vidas, amor sendo considerado por muito como utopia, é o caos
instalado na sagrada família. A culpa é de todos; a única saída, voltar aos
primeiros dias. Colocar Deus no centro, por que Ele é amor, autor e razão de
nossas vidas! Recordo ainda com saudades, dos meus 9, 10, 11, 12... Anos de
idade, eu amava esse período natalino. Lembro-me dos preparativos: pintar a
casa, árvore enfeitada, bolas multicoloridas piscando, cartões e presentes
fazendo parte da decoração, crianças correndo, se esparramando no chão, levando
broncas de montão, adultos comendo, bebendo e dançando no meio do salão, som
alto tocando, pessoas se cumprimentando, abraçando, trocando e abrindo seus
presentes, vestindo sua roupa nova, sapato da moda, colocando seu perfume do
boticário ou natura, depois de passarem horas diante do espelho, se juntam e
vão á missa (do galo). Ficam horas se exibindo, não participam da celebração, não
prestam atenção na pregação, são apenas meros ouvintes, e quando ela termina, voltam
para suas casas ou de amigos, terminam a noite embriagados, sequer entenderam o
real significado do quão importante é essa data para as nossas vidas!
Nascimento daquele que veio ao mundo com uma missão muito linda: semear a paz,
a misericórdia, o perdão, o amor e a justiça! Confesso que nunca tive um natal
desses, em toda a minha vida. É bem verdade que nunca nos faltou comida á mesa,
mas eu sonhava quando eu passava por uma casa dessas de pessoas ricas, lá no
meu íntimo eu dizia: quando eu crescer eu vou trabalhar, quer pra eu comprar
uma casa dessas, deixá-la bem bonita, mesa farta de comidas e andar todo na
beca, como esses moleques aí da festa. Nunca entendi direito por que eles
tinham de tudo e a gente não tinha, nossa casa era muito modesta, rachaduras em
todas as paredes expostas, brechas enormes nas portas, pintura a muito as
paredes não viam, móveis simples e rústicos, televisão, som, geladeira, sofá,
sala de estar e de jantar, nem pensar, tinha apenas quatro cômodos: sala, corredor,
quarto e uma cozinha, banheiro era lá nos fundos que nosso pai construiu pra nó
usar, dormíamos amontoados um por sobre o outro, dois nas redes, e outro num
modesto sofá, tão modesta quanto a nossa casa era a nossa comida, sequer
tínhamos ouvido falar em Chester, rabanada, panetone, Champagne, coisas que
rico já estão enjoados de degustar, mas o básico nunca nos faltava: café e pão
com manteiga, bolachas, banana, inhame, macaxeira cuscuz, batata, feijão,
arroz, farinha e fava. Naquele instante, nada mais importava, na hora do
jantar, nossos pais nos ensinavam a agradecer o pão de cada dia, dizia-nos que
no mundo existiam pessoas que sequer o que comer tinha. Nessa hora ainda meio
sem entender do por quer, olhando para o céu juntávamos nossas mãozinhas e em oração,
agradecíamos a Deus pelo pão de cada dia, muito embora não deixássemos de
pensar e sonhar, numa vida mais “digna” para toda a nossa família! Como aquela
que tinham os meninos lá do centro, não tínhamos inveja, nem sabíamos o que era
isso, só desejávamos, queríamos, nada, além disso! Eram tempos muito difíceis,
mas também muito ricos, a ausência de uma TV em casa nos proporcionou algo
muito raro hoje em dia, nós literalmente parávamos no tempo para ouvir de
nossos avós e pais, histórias, lições de vida, ensinamentos que embora ainda
não soubéssemos naquele momento, nos seriam úteis por toda a vida! Eram como
mandamentos, e nos serviram sem dúvidas como exemplos. Guardo até hoje na
memória muitas delas, e até pretendo transformá-las em livros, um dia! Dentre
as quais, diziam nossos avós ou pais, não lembro direito, que se colocássemos
um sapatinho na janela nas vésperas do natal, Papai Noel passava voando em seu
trenó pela madrugada, e deixava nossos presentes, e eu inocentemente acreditei,
levando a risca a dica que outrora havia recebido. Mas para minha infelicidade,
só fiquei na vontade, na saudade. Além de papai Noel não passar e deixar nossos
presentes, meu lindo sapato conga, que minha avó havia me dado para ir à
escola, durante o período da noite, misteriosamente da janela havia desaparecido.
Chorei muito, era totalmente compreensivo, de tão desiludido, enraivecido e enfurecido,
chinguei bastante, com certeza se papai Noel passasse por ali naquele instante,
certamente não iria gostar do que teria ouvido. Mas depois que a raiva passou
meus pais sabiamente me explicou o porquê do acontecido; disse que o Papai Noel
era um velhinho muito ocupado, que meus sapatos ele tinha levado para dá a
outra criança menos favorecido, mas que eu não me preocupasse, que assim que
ele lembrasse, ele me traria outro igual e novinho. Aí eu me conformei, afinal,
nosso pai para nós nunca havia mentido. E no tempo previsto, inicio do ano
letivo, eu já nem estava mais lembrando isso, ao me acordar, tamanha foi a
minha grata surpresa ao ver do lado esquerdo de minha cabeceira, um pacote meio
que desajeitado e dentro continha, um novo sapato conga, precisavam ver meu
sorriso. Meus olhos brilharam naquele instante, era muita felicidade para pobre
guri, demorou mais chegou, Papai Noel não se esqueceu de mim, dizia eu em alto
e bom som a mim. Só muitos anos mais tarde é que eu fora descobri que o
presente que eu ganhara não fora dado por nenhum homem velhinho barrigudo, de
cabelos e barbas brancas, fora dado por um homem muito mais novo, magro, alto e
moreno, que para que eu pudesse ganhar aquele par de tênis, trabalhou dias
inteiros. Eu nem fiquei chateado por meu pai ter mentido pra mim, fiquei foi muito
orgulhoso por perceber que meu pai seria capaz de fazer qualquer coisa pra me
ver feliz. Os anos se passaram, agora somos adultos, somos quatro ao invés de
três, porém os ensinamentos que do nosso saudoso pai herdamos ao longo dos
anos, jamais serão esquecidos, estarão pra sempre guardados em nossos corações,
serão passados de geração á geração, de pai para filhos. A nossa vida mudou
muito desde aquela casinha simplória no sitio, não ficamos ricos como na
infância eu havia pedido, mas, todos nós conquistamos um lugar ao sol, ainda
não bem sucedidos, porém a Deus eternamente agradecido: a minha irmã mais velha
tornou-se empresária, proprietária em são Paulo de um restaurante, a que vem logo
depois de mim, tornou-se dona de salão de beleza, o meu irmão caçula tornou-se
caminhoneiro, e eu, Biólogo, professor, artista plástico e músico amador,
aprendiz de poeta e escritor, um eterno observador e apaixonado pela a vida!
Hoje não vivemos mais debaixo de mesmo teto, cada um de nós decidiram compor a
sua história, todos são donos de suas casas, mães e pai de família, eu depois
de duas tentativas frustradas, voltei novamente pra casa, moro com a minha mãe
e avó paterna, saudades de meu saudoso pai que se foi a pouco mais de uma
década, e dos meus queridos e amados irmãos, que estão todos por aí dispersos,
pelas veredas da vida. Hoje é natal, dia de confraternizar, abraçar, beijar,
rezar, orar, amar, refletir, meditar, e por quer não, lembrar-se dos nossos
antigos natais, dos entes que se foram e não voltam mais, e até das nossas
paupérrimas ceias natalinas, cuja maior alegria das nossas vidas era permanecer
sempre unidos, apesar das dificuldades vividas. A casa não era bonita, não
tínhamos “diversidades de comidas típicas”, roupas de grife, mas tínhamos o
amor, o carinho, a união e o respeito, propagados pelos nossos pais, isso era
maior que tudo, não havia melhor presente! Ah, como sinto saudades daqueles
tempos! Hoje nos falamos pelo telefone, nos saudamos, desejamos Feliz Natal um
pro outro, rimos, choramos, lamentamos, e planejamos mais uma vez de estarmos
todos juntos, de uma vez pra sempre, algum dia! Sabemos que é difícil, mas tudo
é possível ao que crer! Afinal hoje é Natal, dia em que milagres podem
acontecer! Não é só uma data festiva, em que se arruma a casa toda só pra
receber parentes e amigos, como a que eu vi quando era menino, é a data mais
importante para nós Cristãos, comemora-se o nascimento do Messias, o Salvador
do mundo, o autor das nossas vidas! É muito mais que ir á igreja apenas de
corpo presente, depois á praça ver os amigos, por último ao baile paquerar as
meninas, dançar, beber até o dia amanhecer, e no dia seguinte ir pra casa
dormir, e ao acordar, continuar na mesma vidinha de sempre! Demorou muito para
que viéssemos entender que o mais importante é o ser do que o ter! Éramos
felizes tendo tão pouco, hoje o que temos, não sei se é bastante pra supri o
que perdemos, mas isso é a vida, termina-se um ciclo enquanto outro se inicia.
Assim é o Natal, nascimento, renascimento, mudança de atitude e comportamento,
entrega e renúncia, amor além da vida!
Adilson Adalberto

