Tenho que te confessar
uma coisa: apaixonei-me por uma freira. Sim, verdade; fiquei completamente
apaixonado, digo, enfeitiçado por aquela noviça. Linda. Meiga. Serena. Olhos de
ressaca têm aquela pequena. Pecado? Que nada, quem manda ser tão linda aquela
diaba. Desculpa, é que de santa ela não tem nada; apesar de usar aquelas roupas
compridas. Pode parecer loucura o que digo, mas, mesmo usando o hábito, ela me
excita. Quase pirei quando lhe vir pela primeira vez naquele convento. Fiquei
encantado com aquela linda morena de olhos verdes – mata; voz doce, suave como
a pluma leve do bater das asas de uma garça. O mundo pára. Tudo pára... Quando
ela fala (coisa rara é ouvir-la. Além de linda é muito tímida). Ela é uma
daquelas pessoas iluminadas, que ouve mais que fala. Que olha dentro dos teus
olhos e, penetra fundo, dentro de tua alma; e não menos importante, te dá uma
paz de espírito incrível, n’alma. Tanto que todas as vezes que a via, me dava
uma vontade louca, de furtar-la e levar-la pra casa, e mesmo que não tivéssemos
nada, só a sua presença certamente me passaria vibrações positivas. Ela é de uma
dualidade incrível; ao mesmo tempo em que me eleva ao céu, me atira lá do alto,
sem dó nem piedade, como a uma fruta madura fresquinha. Verdadeiro turbilhão de
sensações, emoções e sentimentos, passa pela a minha cabeça naquele exato
momento. A minha voz sumiu inexplicavelmente. Não me pergunte como, mas eu
fiquei gago de repente. Mãos transpirando, pés saltitando, olhos lacrimejando
num misto de pavor e encantamento, nas nossas sucessivas trocas de olhares.
Sinto-me bobo, meio alucinado, fantasiando meios de um dia estar ao seu lado.
Felicidade é algo inexplicável. Um alvo às vezes inalcançável, um sonho
desejável, um território inimigo a ser conquistado, um salto no escuro, um
olhar saudosista e fundamentalista pro passado, sonho de consumo de todos os apaixonados,
diamante a ser lapidado, em suma, é estar diante de si, sentindo-se
completamente realizado, por estar em mesmo ambiente que ela, ainda que de modo
esporádico. É sentir o seu cheiro – ligeiramente suave e adocicado, tal qual o
de terra molhada, num belo fim de tarde rural; e ouvir sua voz suave - no
palco, como o cantar de um pássaro, num galho qualquer de arvore. Ah, se o
Senhor pudesse ouvir minhas preces ou, quisesse; certamente eu seria o homem
mais feliz do mundo, ao lado dessa noviça rebelde.

