domingo, 13 de agosto de 2017

Carta ao meu pai - in memoriam

Domingo: 13/08/17


Pai já se passou alguns anos que o senhor se foi, mas eu não o esqueci. No meu dia a dia, nas coisas que faço e que amo, tua és presença constante. Mesmo eu sendo hoje um adulto, frente às decisões a tomar, quanto ao meu futuro, penso e repenso nos conselhos que o senhor me dava, quando juntos estávamos. Às vezes até, perdoe-me à ousadia, reverto os papéis, só pra imaginar como em meu lugar o senhor se sairia. Melhor que eu em algumas circunstâncias, outras nem tanto, mas, não se ganha sempre, nem se sabe tudo, essa é máxima da vida. Essa coragem que tinhas de encarar as intempéries, é o que mais te “invejo”, sabia? Isso não se aprende na escola, professor nenhum ensina; ou é hereditário, ou se aprende a duras penas com a vida. Mas paciência, que to tentando ser otimista viu; uma hora eu aprendo, já que não herdei de família. Muitas batalhas eu tenho travado desde a sua partida, muitos adversários se agigantando, muitos obstáculos se multiplicando, algumas eu perco, outras eu ganho, mas, to na pista. O que mais sinto falta, além de sua presença física, é seu braço forte pra nos apoiar nas horas difíceis da lida. Tarefa complicada essa minha, de substituí-lo, como seu primogênito, no “trato” com a família. Na função o senhor se saia bem melhor, ao menos eles te respeitavam, quando não, o temiam. Hoje vejo a vida com outros olhos, e a mesma já perdeu em muito o seu encanto, mas ainda preservo em minha essência, a velha infância querida – melhores anos de minha vida; isso não muda nunca, sou um eterno saudosista. O meu passado é o meu tesouro, meu mapa da mina, minha maior fortuna, minha relíquia; exageros a parte, é lá que sempre que posso, recarrego as minhas baterias. Têm cada lembrança linda, histórias ditas e vividas; outras nem tanto, mas essas eu jogo no mar do esquecimento; prefiro as que me edificam. Quando as recordo, precisa ver o brilho dos meus olhos, o sorriso fácil e radiante em meu semblante; só alta-estima. Se recordar é viver, eu to recordando a vida. Também to vivendo viu, pra não dizer que fico só no âmbito da utopia. Bom é recordar a nossa infância na rua da facada, no sitio do Sr Aniceto, na rua da olaria e principalmente onde vivi o apogeu da minha nada mole vida – Rua João Feliciano de Luna, número nove – beira da linha. Hoje infelizmente ela já nos pertence mais, deixou de ser da nossa família, por um ato de insanidade, e quem sabe, dá revolta decorrente das perdas da bisavó Maria e sua, nos desfizemos da nossa moradia. Chega dá dó, passar pela a linha, e não poder subir e entrar naquela que sempre foi de nossa família. Se a época alguém viesse me contar, que um dia íamos viver longe de nossa casinha, eu com certeza riria; e, claro, não acreditaria. Mas a gente não tem bola de cristal, nem somos adivinhos. Se pudéssemos voltar atrás, ah meu velho, se isso fosse possível... E essa tal máquina do tempo, por quer é que nem um cientista maluco inventou ainda? Evitaria tantos sofrimentos, tristezas, angústias, depressões, melancolias, em fim, idas ao analista ou algum psíquico. Talvez seja essa a razão ou motivo... Já pensou os encontros que ela proporcionaria? Mas disso o senhor não entende; seu negócio sempre foi passarinhos; “doca do canário” como era comumente conhecido. Lembro-me de quando íamos à feira de pássaros, e os cantos que eu mais gostava eram os da patativa, canário e o galo de campina. Esse último eu ensaiei alguns assobios, vendo-o reproduzir magistralmente. Às vezes me pergunto por que é que tudo mudou assim tão de repente? Por quer é que o senhor se foi tão prematuramente? Ainda era jovem, muita vida ainda pela a frente. Se o senhor ainda estivesse conosco, tudo seria diferente. Mas não, quis o destino, impiedoso que só ele, te tirar da gente. Não deu mais pra ficar ali sabe, com a sua partida; o senhor não ia mais subir a ladeira com a sua lambreta vermelha ou a preta, e sentar em baixo do pé de castanhola, pra nos ver e a avó - sua mãe dá a benção. Aí não nos restou alternativa. Erramos na escolha, com certeza; poderíamos ter tomado outras decisões, mas o corpo é quem padece, quando a cabeça não pensa. O tempo é quem tem sido o corpo de jurado e também quem nos tem dado a sentença. O travesseiro e a cama – nossos únicos conselheiros e confidentes. Pena o tempo não voltar atrás, hoje faria tudo diferente. Sim, é verdade que a gente só dá valor ao que se perde, que quando temos ao alcance das nossas vistas. Tudo passa; inclusive a vida. O que não faria pra está contigo frente a frente, te dá uma abraço bem apertado, e dizer-lhe tudo o que está engasgado aqui dentro há tempos, e que por razões banais não dissemos. Também, o senhor e essa sua mania de falar que “homem que é homem não chora, que tem que ser forte, não tem que demonstrar fraqueza nem sentimentos”. Lamento em contradizer, mas o que tenho a dizer, é que o senhor se equivocou quanto a isso. Espia, olha, homem que é homem chora, e como chora viu. Chora de tristeza, de alegria, de medo, de raiva, e até de saudades, que é o que sinto de ti. Tenho certeza que o senhor também chorava escondido, só se fazia de forte, quer pra manter a fama e o tipo. Peço desculpas se te decepcionei; se você esperava mais de mim e eu não dei. Peço perdão por não compreender-lo quando o senhor mais queria, não era sinônimo de rebeldia, era só devaneio. O senhor fez o que podia e o que achou que devia, e eu o respeito. És o meu pai e eu teu filho, carrego comigo o teu sobrenome e o teu sangue nas veias. Sei que vamos nos encontrar algum dia, mas até lá... Vou levando a vida, do jeito que ela me levar. Errando e acertando, caindo e levantando, perdendo e ganhando, mas com a dignidade e honestidade que o senhor sempre fez questão de me ensinar; enquanto eu viver, vou te honrar. E se acaso aquele nosso encontro momentâneo pudesse acontecer, eu só queria te dizer aquilo que sempre tive vontade e o senhor nunca me deu chances de falar: - Te amo pai! E vou te amar, seu “Doca”, por toda a minha vida! “Feliz dia dos pais”! 
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